Estudo de viabilidade imobiliária: o que é e como fazer (passo a passo)

No começo da jornada no mercado imobiliário é preciso evitar o seguinte erro: a pessoa se apaixona pelo terreno (ou pelo imóvel) primeiro… e só depois tenta descobrir se aquilo “fecha a conta”.

O estudo de viabilidade existe para inverter essa ordem. Ele é o seu “filtro anti-empolgação”.

Na prática, viabilidade é responder com o máximo de honestidade possível:

  • dá pra construir aqui?
  • dá pra aprovar?
  • dá pra vender/alugar com liquidez?
  • e dá pra fazer a conta fechar sem depender de milagre?

Eu gosto de pensar assim: viabilidade não é um “documento”, é um processo de decisão. E quanto mais repetível esse processo for, menos você depende de sorte.

(Nota técnica: a ABNT tem normas que organizam as etapas de projeto; a NBR 13531 é uma das referências citadas quando se fala em estrutura e fases de desenvolvimento de projeto, incluindo a etapa de viabilidade como parte desse caminho. Aqui eu vou traduzir isso pra vida real.)

O que é um estudo de viabilidade imobiliária

É uma análise estruturada que junta três mundos:

  1. O que é permitido (regras legais/urbanísticas e restrições)
  2. O que é possível (condições do terreno e custo de obra)
  3. O que faz sentido (mercado, produto e números)

Se você só olha o “permitido”, você pode aprovar um projeto que não vende. Se você só olha o “possível”, você pode construir algo que não cabe na regra. Se você só olha o “faz sentido”, você pode sonhar com uma demanda que não existe.

Viabilidade é o encontro dos três.

O modelo Radiê de estudo de viabilidade (o funil)

Gosto de pensar em um fluxo simples, inspirado em como profissionais estruturam essas análises:

Terreno + matrícula → condicionantes legais → condicionantes ambientais → condicionantes construtivos → simulação numérica → simulação volumétrica → decisão (go / no-go)

A grande sacada é: você não precisa fazer tudo com perfeição no primeiro dia. Você precisa criar um padrão que te leve a uma decisão segura antes de gastar energia (e dinheiro) demais.

Agora vamos por partes.

Passo 1: Terreno existe “de verdade”? (documentos + realidade)

Antes de qualquer conta, eu quero duas respostas:

1) A documentação está minimamente ok?

Aqui entra o básico: matrícula, confrontações, situação do lote, se tem algum impedimento óbvio, se é terreno regular, se tem histórico estranho.

2) A realidade física bate com a promessa?

Tem acesso? É rua que alaga? Tem talude? Tem barulho industrial do lado? Insolação ruim? A vizinhança “conversa” com o que você pretende vender?

Essa é a fase onde o “terreno barato” costuma revelar o motivo de ser barato.

Passo 2: Condicionantes legais e urbanísticas (o que a cidade permite)

Aqui é onde muita gente pula, e depois paga caro. O terreno não vale só pela metragem. Ele vale pelo que você pode construir nele.

Essa etapa normalmente envolve:

  • zoneamento / uso do solo (o que pode: residencial? comercial? misto?)
  • recuos (frente, laterais, fundos)
  • altura / gabarito
  • taxa de ocupação e permeabilidade
  • coeficiente / potencial construtivo (o quanto você pode “colocar de área”)

Passo 3: Condicionantes ambientais (o que não negocia)

Aqui entram as restrições que podem reduzir (ou impedir) a obra:

  • Área de Preservação Permanente (APP) / áreas protegidas
  • vegetação e necessidade de autorização
  • faixas não edificáveis
  • drenagem/curso d’água
  • áreas com risco geotécnico

Essa parte é muito “sim/não”. Às vezes o problema não é “vai custar mais”. É “não dá”.

E mesmo quando é possível, a restrição pode diminuir tanto o aproveitamento que o projeto deixa de fazer sentido.

Passo 4: Condicionantes construtivos (o que a obra vai te cobrar)

Aqui entra a engenharia que o Instagram não mostra.

A pergunta é: qual é o custo invisível do terreno?

  • topografia (plano vs. declive)
  • solo (precisa de fundação mais cara?)
  • drenagem
  • contenções
  • logística de obra (acesso de caminhão, espaço de canteiro)
  • vizinhança (interferências, recuos reais, muros, servidões)

Esse passo é onde muita “oportunidade” vira armadilha, porque o custo explode sem você entender por quê.

Passo 5: Mercado e produto (pra quem é isso?)

Agora que você já sabe o que pode e o que custa, entra a pergunta mais importante:

quem vai comprar (ou alugar) esse imóvel?

Você quer responder:

  • qual é o público dominante da micro-região?
  • qual é o “imóvel que gira” (metragem, planta, padrão)
  • qual é o ticket que o financiamento comporta (na prática, não no sonho)
  • o que trava venda? (condomínio alto, falta de vaga, rua ruim, planta ruim)
  • liquidez: vende em quanto tempo, em média?

Esse ponto conversa muito com dois posts que já estão no Radiê e ajudam a “puxar a pessoa pro método”:

Imóveis podem dar prejuízo? Entenda quando investir em imóveis dá errado (pra lembrar que não é só comprar e esperar)

10 sinais de que um imóvel não é um bom investimento (pra criar radar de ciladas)

Passo 6: Simulação numérica (a planilha sem autoengano)

Essa é a parte que transforma “ideia” em “decisão”.

O segredo aqui é fazer uma planilha honesta. É legal trabalhar com cenários:

  • Conservador: venda mais lenta, custo um pouco maior, preço um pouco menor
  • Realista: o que você acredita ser o provável
  • Otimista: se tudo der muito certo

E a regra de ouro:

Se o projeto só funciona no cenário otimista, ele provavelmente não é viável.

O que você estima aqui (em faixas, sem precisar “cravar” no início):

  • custo do terreno (ou custo de aquisição total)
  • custo de obra (por m² e por tipologia)
  • despesas indiretas (projetos, taxas, aprovações, ligações)
  • prazo (obra + venda)
  • preço de venda (por m² e total, sempre com base em mercado)
  • margem (e principalmente: margem no cenário conservador)

Passo 7: Simulação volumétrica (quando o número vira forma)

Depois que os números indicaram a viabilidade, você faz a pergunta:

Qual é o projeto mais simples possível que respeita as regras e atende a demanda?

A volumetria é isso: “massa” e organização básica:

  • Quantas unidades cabem?
  • Como fica a circulação, vagas, áreas técnicas?
  • A planta faz sentido pra vida real?

E aqui acontece algo importante: a volumetria devolve informação para planilha.

Mudou a área? Mudou o custo. Mudou o produto? Mudou o preço. Então volta e recalcula.

Viabilidade é esse vai-e-volta até a ideia ficar “estável”.

Passo 8: Decisão (Go / No-Go), e o “porquê”

No fim, você não quer um relatório bonito. Você quer uma decisão com clareza.

Aqui temos três saídas:

  • GO: dá pra avançar pra estudo mais detalhado/projeto
  • NO-GO: não fecha ou tem risco que eu não aceito
  • GO com condição: só avança se resolver X (ex.: confirmar solo, ajustar produto, revisar preço)

Erros comuns que o estudo de viabilidade evita

  • comprar terreno sem confirmar regra (e descobrir depois que não pode fazer o que queria)
  • fazer conta sem vacância/prazo/despesas indiretas (e achar que está “sobrando” dinheiro)
  • projetar o imóvel que você moraria, não o imóvel que o bairro compra
  • depender de valorização como “salvação”
  • ignorar micro-regiões (bairros grandes mudam muito de rua pra rua)

Se você quer um norte bem prático pra isso, o post 10 sinais de que um imóvel não é um bom investimento é um ótimo “check” antes de avançar.

Como aplicar isso no dia a dia (sem virar burocrático)

Se você tá começando, não precisa fazer uma tese.

Você precisa de um padrão repetível, que caiba em 1–2 horas de avaliação inicial.

Um jeito simples:

  1. triagem rápida (documentos + legal básico)
  2. checagem de risco grande (ambiental/construtivo)
  3. mercado (produto e preço por m² na micro-região)
  4. planilha com 3 cenários
  5. se passar, aí sim aprofunda

O Radiê, pra mim, é isso: transformar decisões caras em decisões menos emocionais.

Duvidas frequentes

Estudo de viabilidade é só para construtora?

Não. Qualquer pessoa que vai comprar imóvel como investimento (ou até pra morar, em alguns casos) se beneficia de uma versão simplificada de viabilidade: regra, risco e conta.

Dá pra fazer viabilidade sem engenheiro/arquiteto?

Dá pra fazer a etapa inicial (triagem). Mas quando entra em terreno com risco, topografia complexa ou restrição, o ideal é ter a opinião profissional.

Viabilidade é o mesmo que orçamento?

Não. Orçamento é uma parte. Viabilidade junta regra, risco e mercado e usa o orçamento como ferramenta, não como fim.

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